Recebido em: 15/12/2024
Aprovado em: 10/10/2025
Trabalhar e viver da arte: condições e relações de trabalho
de artistas plásticos paraibanos
1
Working and living from art: working
conditions and relationships of visual
artists from Paraíba
Trabajar y vivir del arte: condiciones y
relaciones laborales de artistas
plasticos de Paraíba
Hiago Trindade
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
Lattes: http://lattes.cnpq.br/2771002230887296
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0462-4868
Eduardo Montelli
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
Lattes: http://lattes.cnpq.br/3231629844108704
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8756-7875
Elís Santana Ferreira
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
Lattes: http://lattes.cnpq.br/6528460161519873
ORCID: https://orcid.org/0009-0005-4198-3757
RESUMO
Introdução: O mundo do trabalho vem passando por diversas transformações
nos últimos anos. Tais transformações impactam as condições de vida e
existência de todas as frações que compõe a classe trabalhadora, inclusive
os artistas plásticos.
Objetivo: Compreender as condições e relações de trabalho dos artistas
plásticos paraibanos na realidade contemporânea.
Metodologia: O estudo desenvolveu-se a partir de uma pesquisa de tipo
qualitativo, realizada a partir da revisão de literatura apoiada, sobretudo,
em autores do campo marxista. Além disso, realizaram-se entrevistas
semiestruturadas direcionadas aos artistas plásticos paraibanos que se
apresentaram no Centro Cultural do Banco do Nordeste da Cidade de Sousa-
PB, entre 2023 e abril de 2024.
Resultados: Os artistas plásticos paraibanos enfrentam dificuldades para o
desenvolvimento de suas atividades laborais, sobretudo em decorrência da
flexibilidade de suas jornadas, da ausência de infraestrutura para as
atividades e das incertezas sobre seus rendimentos financeiros. A despeito
dessas dificuldades, mostram-se apáticos às formas de organização coletiva
para a categoria.
1
Este texto resulta de pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab)
grupo vinculado a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). A referida pesquisa contou com
apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano
Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região
TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Conclusão: O estudo revela um quadro de precarização do trabalho do
artista plástico paraibano, interligado às determinações mais amplas que se
sucedem no mundo do trabalho.
PALAVRAS-CHAVE: artista plástico; precarização; trabalhador.
ABSTRACT
Introduction: The world of work has undergone various transformations in
recent years. These transformations impact the living conditions and
existence of all segments that make up the working class, including visual
artists.
Objective: To understand the working conditions and relationships of visual
artists from Paraíba in the contemporary reality.
Methodology: The study developed from a qualitative research, carried out
through a literature review primarily supported by authors from the Marxist
field. In addition, semi-structured interviews were conducted with visual
artists from Paraíba who perform at the Banco do Nordeste Cultural Center
in the city of Sousa-PB, between 2023 and April 2024.
Results: Visual artists from Paraíba face difficulties in developing their work
activities, mainly due to the flexibility of their working hours, the lack of
infrastructure for their activities, and the uncertainty about their financial
earnings. Despite these difficulties, they appear indifferent to forms of
collective organization for the category.
Conclusion: The study reveals a scenario of precarious working conditions
for visual artists from Paraíba, linked to broader developments occurring in
the world of work.
KEYWORDS: precarious work; visual artist; worker.
RESUMEN
Introducción: El mundo del trabajo ha experimentado diversas
transformaciones en los últimos años. Estas transformaciones impactan las
condiciones de vida y existencia de todos los segmentos que componen la
clase trabajadora, incluidos los artistas plásticos.
Objetivo: Comprender las condiciones y relaciones laborales de los artistas
plásticos de Paraíba en la realidad contemporánea.
Metodología: El estudio se desarrol a partir de una investigación
cualitativa, realizada a través de una revisión de la literatura anclada en la
perspectiva marxista y entrevistas semiestructuradas dirigidas a los artistas
plásticos de Paraíba que se presentaron en el Centro Cultural del Banco do
Nordeste de la ciudad de Sousa-PB, entre 2023 y abril de 2024.
Resultados: Los artistas plásticos de Paraíba enfrentan dificultades para
desarrollar sus actividades laborales, principalmente debido a la flexibilidad
de sus jornadas, la falta de infraestructura para sus actividades y la
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
incertidumbre sobre sus ingresos financieros. A pesar de estas dificultades,
muestran indiferencia hacia las formas de organización colectiva para la
categoría.
Conclusión: El estudio revela un panorama de precarización del trabajo del
artista plástico de Paraíba, interconectado con las determinaciones s
amplias que se suceden en el mundo del trabajo.
PALABRAS CLAVE: artista plástico; precarización; trabajador.
INTRODUÇÃO
Na realidade brasileira, o mundo do trabalho passa por sucessivas e intensas
transformações e os diversos segmentos de trabalhadores são diretamente afetados
por elas, sobretudo com a ampliação das formas de trabalho marcadas pela
precarização. Os artistas, enquanto parte da classe trabalhadora, também são
acometidos por relações laborais permeadas por instabilidades contratuais, pela
flexibilização de tarefas e jornadas bem como por diferentes formas de
intensificação de seu processo laboral.
Partindo dessa premissa, neste texto, temos por objetivo averiguar como se
processam as condições e relações de trabalho dos artistas plásticos paraibanos na
realidade contemporânea.
Do ponto de vista metodológico, além do diálogo com a produção teórica
afeita ao tema do trabalho e da arte, realizamos análise de dados primários, obtidos
a partir de entrevistas semiestruturadas realizadas com artistas plásticos paraibanos
que se apresentaram no Centro Cultural do Banco do Nordeste (CCBNB), situado na
cidade de Sousa PB, entre o ano de 2023 e abril de 2024.
A partir da consulta ao histórico de programação do CCBNB, registramos um
total de 21 artistas que atendiam aos critérios estabelecidos para a amostra. Destes,
11 aceitaram participar da investigação e nos concederam as informações
necessárias.
As entrevistas foram registradas em gravador de voz, transcritas e analisadas
a partir de quatro eixos centrais, quais sejam: a) relação entre a concepção de arte
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1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
e de trabalho; b) relação com as condições materiais de produção, venda e exposição
de obras de arte; c) relação entre o trabalho artístico e o uso de tecnologias de
comunicação; d) relação com a organização coletiva. Dessa forma, no decorrer deste
texto, procuraremos dar ênfase a esses aspectos.
Resta salientar que, para preservar a identidade das pessoas que concordaram
em participar da pesquisa, substituímos os nomes originais dos sujeitos. Elegemos
como codinomes instrumentos de trabalho que são corriqueiramente utilizados pelos
artistas em suas práticas, a saber: Tinta, Pincel, Tela, Tesoura, Caneta, Aquarela,
Esfuminho, Guache, Carvão, Papel e Moldura.
1 Trabalhadores-artistas na Paraíba: o que revelam os dados?
A partir das entrevistas realizadas, constatamos que a profissionalização das
pessoas no âmbito do trabalho artístico decorre de fatores diversos: familiares,
subjetivos, técnicos, dentre outros. Para ilustrar essa afirmação, reproduzimos,
abaixo, trechos das entrevistas de dois artistas, a saber: Pincel e Tinta.
Pincel diz ter encontrado no trabalho artístico uma forma de se aproximar da
família. Essa inserção mais profissional no ramo ocorreu cerca de cinco anos e,
nos dias atuais, o artista consegue dedicar-se exclusivamente à arte. Como explica
no seguinte trecho:
Eu não conseguia ter tempo para o meu filho, a minha filha e a minha esposa,
porque era muita responsabilidade, muita coisa [...] e eu sentia que
atrapalhava na educação do meu filho [...] Só que chegou um momento que
eu senti muita, muita necessidade de estar com ele [filho], estar mais
presente... Eu digo em tudo, na educação, [sic] ali com ele pra
acompanhar todo momento. E eu resolvi abrir o [...] do meu trabalho
para trabalhar com arte, que é uma coisa que eu fazia [...] (informação
verbal)
2
2
PINCEL. Entrevista remota. [maio 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 16 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a Universidade
Federal de Campina Grande (UFCG).
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Assim, seus vínculos familiares influenciam-no muito na tomada de decisão
por alterar sua carreira profissional. Ademais, embora o referido artista se
utilizasse da arte em seu cotidiano, o fazia de maneira “não profissional”, haja visto
que essas produções artísticas ocorriam em concomitância com um trabalho formal,
de onde provinham os recursos financeiros necessários à sua sobrevivência. Trata-se,
dessa forma, de um câmbio que ocorre do “trabalhador-formal” para o “trabalhador-
artista”. a artista Tinta, ao refletir sobre o início de suas atividades na área, relata
que “Não foi bem uma decisão. É porque, assim, eu não sei fazer nada.” (informação
verbal)
3
Na entrevista, Tinta relata ter se dedicado, inicialmente, a um curso de nível
superior, contudo, ao fim da sua formação profissional, não conseguiu ter melhores
oportunidades na área e, por isso, voltou-se ao trabalho artístico. Suas primeiras
experiências de atuação nesse campo foram interessantes porque, ao mesmo tempo
em que a artista se enxergava fazendo algo positivo e útil, obtinha respaldo do
público pela qualidade de seus produtos artísticos. A partir daí, participou de
algumas capacitações e foi, pouco a pouco, desenvolvendo seu estilo.
Desse modo, a inserção dessa profissional no mundo do trabalho não foi, a
priori, planejada, tal como podemos verificar no depoimento de Pincel. Ao contrário,
ela surge como uma alternativa ao desemprego ou à saturação do mercado de
trabalho em sua área de formação.
Historicamente, o mercado de trabalho no Brasil estruturou-se relegando
grande parte da população ao chamado Exército Industrial de Reserva
4
, ou seja, ao
3
TINTA. Entrevista remota. [dez. 2023]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2023. 1 arquivo .mp3 (ca. 47 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a Universidade
Federal de Campina Grande (UFCG).
4
A noção de exército industrial de reserva adotada neste trabalho está ancorada nos estudos
desenvolvidos por Marx, especialmente na obra O capital (Marx, 1989), na qual o pensador sustenta
que a reprodução do capitalismo, enquanto modo de produção, se fundamenta, dentre outros
aspectos, na criação de “[…] uma população trabalhadora supérflua relativamente, isto é, que
ultrapassa as necessidades médias da expansão do capital, tornando-se, desse modo, excedente"
(MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. o Paulo: Bertrand, 1989. Livro 1. p. 731).
Historicamente, essa massa de trabalhadores sobrantes se formou a partir da alteração na
composição orgânica do capital, sobretudo a partir da elevação da dimensão do capital constante
em detrimento do capital variável. Na era do capitalismo flexível e da indústria 4.0, essa lógica
6
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trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
desemprego estrutural ou a formas diversas de subocupação conforme Mészáros
5
. Por
isso, não é fortuito que Tinta relate esse tipo de dificuldade e tenha procurado
desenvolver um conjunto de habilidades de forma mais autônoma para obter
rendimentos no meio artístico.
A situação dessa artista é interessante, ainda, pois revela como o mercado de
trabalho no Brasil se estrutura a partir de uma linha tênue entre o formal e o
informal, a regulação e a desregulação dos direitos, a estabilidade e a instabilidade
do emprego
6
, sobretudo considerando a situação dos trabalhadores jovens e com
diploma de nível superior, denominados por alguns campos da sociologia do trabalho
como “precariado”, nos termos de Trindade
7
.
Mas, se os motivos para ingresso do mundo do trabalho artístico são distintos
entre os sujeitos entrevistados, outros elementos que os aproximam, a exemplo
das formas de flexibilização experimentadas em sua atuação profissional.
Em termos gerais, segundo Dal Rosso
8
, a flexibilidade na organização e
distribuição da jornada de trabalho é, no campo produtivo-industrial,
frequentemente utilizada como uma estratégia gerencial-burguesa para melhorar a
eficiência e diminuir os custos de produção. Sendo assim, essa flexibilidade pode ser
refletida em horários de trabalho variáveis com uma maior exigência de
disponibilidade por parte dos trabalhadores, nas modalidades de inserção, na
estruturação dos turnos e escalas, dentre outros fatores. Por isso, na sociedade
atual, a flexibilização vem sendo utilizada, via de regra, para potencializar a
precarização do trabalho.
segue, com as particularidades próprias desse tempo, cumprindo função decisiva para a formação
do exército industrial de reserva e, como corolário, para o aumento dos índices de desemprego
que ocorre cada vez mais de modo estrutural.
5
MÉSZÁROS, Instván. Para além do capital: rumo a uma Teoria da Transição. São Paulo: Boitempo,
2002. p. 20-30.
6
TRINDADE, Hiago. A contrarreforma trabalhista no Brasil e o precariado: contribuição ao debate.
Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v. 3, p. 1-21, 2020.
7
TRINDADE, Hiago. O precariado no Brasil contemporâneo. 2019. Tese (Doutorado em Serviço
Social) - Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro, 2019. p. 125-2012.
8
DAL-ROSSO, Sadi. Mais trabalho!: a intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo:
Boitempo Editorial, 2008. p. 19-44.
7
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Por seu turno, Drumond, Araújo, Maia, Luquini e Fernandes
9
refletem sobre
como a busca de maior produtividade e de eficiência expõe os trabalhadores a
condições precárias, que podem ser caracterizadas por instabilidade, insegurança e
falta de proteção social. Essas mudanças são desencadeadas em um contexto de
reestruturação produtiva que, sob o discurso neoliberal, vem contribuindo para o
sucateamento dos postos de trabalho e para a generalização da precarização em
todos os setores do mercado de trabalho.
O trabalho artístico, ainda que apresente particularidades em relação ao
panorama acima descrito, também é afetado, direta ou indiretamente, pela
flexibilidade e por todas as demais configurações que se desenvolvem no mundo do
trabalho. Os artistas, em sua grande maioria, constituem trabalhadores autônomos
e, por isso, enfrentam incertezas financeiras, instabilidade no emprego e
dificuldades em conciliar vida pessoal e profissional. Além disso, a falta de uma
estrutura “estável” de trabalho pode ocasionar períodos de escassez financeira,
estresse e necessidade de aumentar constantemente suas jornadas laborais.
Pincel, por exemplo, identificou a necessidade de uma rotina fixa de horários
para o trabalho. Por isso, adquiriu um espaço onde está sendo construído seu ateliê.
Com essa iniciativa, ele pretende regular seus horários para demarcar melhor o seu
tempo de trabalho e o seu tempo de vida e, assim, dar mais atenção à sua família.
Abaixo, segue o seu relato acerca dessa questão:
[...]E eu fazia muito isso, eu colocava muito [o trabalho] pro sábado e pro
domingo, e hoje eu evito não usar esses dois dias, porque eu sei como esses
dias são importantes pros meus filhos, é o momento de ficar com eles. Então,
eu acho que o que atrapalhava era isso [...] aí meu filho disse ‘papai, nunca
mais você passou um domingo em casa’, daí eu resolvi começar a me
organizar (Informação verbal).
10
9
DRUMOND, Maria Cristina; ARAUJO, Ionara Coelho; MAIA, Paula Lopes de Oliveira; LUQUINI, Isabela
Mendonça; FERNANDES, Gersonni Mutti. Precarização e flexibilização do trabalho no Brasil. Brazilian
Journal of Development, [São José dos Pinhais], v. 5, n. 12, p. 29688-29703, 2019.
10
PINCEL. Entrevista remota. [maio 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 16 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
8
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Antes de avançarmos na análise, cumpre destacar algo importante: o exemplo
de Pincel, que conseguiu organizar um atel fora de seu espaço doméstico e
estabelecer horários mais sistemáticos para realizar seu trabalho, não reflete a
realidade vivenciada pela maioria dos artistas paraibanos. Em geral, os ateliês se
materializam como uma espécie de extensão da casa, uma espécie de “puxadinho”,
tornando turva a “fronteira” que separa o lar da oficina laboral. Inclusive, no âmbito
desta investigação a fala de Moldura é bastante ilustrativa a esse respeito. Diz ele,
referindo-se ao ateliê, que “fica em casa, eu divido a casa, parte da casa é um
ateliê” (informação verbal)
11
.
Por seu turno, Tesoura revela que: “É tudo em casa, na sala aqui de casa. Na
mesma mesa que é pra se alimentar é a mesa que constrói as coisas (risos)”
(Informação verbal)
12
.
Na esteira dessas reflexões é relevante apontar o depoimento de Tinta,
especialmente no que se refere a forma pela qual a organização do tempo de
trabalho ocorre em sua experiência. Em suas próprias palavras: “É um fluxo muito
louco porque tem horas que não tem nada e de repente tem um monte de coisa [...]
muita gente da arte é assim [...] igual a mim” (Informação verbal)
13
.
Com essa fala, a artista demonstra que em seu trabalho é atravessado por
momentos de fluxos mais moderados e outros mais intensos, provocando uma
instabilidade de sua jornada laboral, pois as demandas e requisições pelos seus
serviços ocorrem de forma espontânea. Nesse contexto, torna-se visível que a
configuração dessa dinâmica de trabalho, exponencia o seu desgaste físico e mental.
11
MOLDURA. Entrevista remota. [jul. 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 4 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
12
TESOURA. Entrevista remota. [nov. 2023]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2023. 1 arquivo .mp3 (ca. 23 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
13
TINTA. Entrevista remota. [dez. 2023]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2023. 1 arquivo .mp3 (ca. 47 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
9
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Outro exemplo interessante, nesse sentido, é o de Moldura. No transcorrer da
entrevista, após indicar o cumprimento de uma jornada de oito a dez horas por dia,
o artista avança em uma reflexão abrangente sobre o seu tempo de trabalho. Senão,
vejamos o seu depoimento: “[...] eu compreendo que o artista de verdade, [tem] a
rua, a feira, o shopping, tudo é um laboratório, então eu acho que saiu de casa ou
tá em casa lendo, ele tá sempre trabalhando” (Informação verbal)
14
.
Tais conflitos relativos à instabilidade das jornadas e dos fluxos de produção,
como podemos observar nas falas acima transcritas, parecem estar intimamente
relacionados ao caráter de informalidade que o trabalho dos artistas adquire na
contemporaneidade, o que também se liga aos conflitos financeiros que surgem nesse
contexto.
Tela afirma que desenvolve seu trabalho artístico há aproximadamente 15
anos, e expressa em diversos momentos de sua entrevista uma relação conflituosa
com a questão financeira. Seu trabalho artístico não é realizado como fonte de
renda, e ele também não exerce nenhum outro trabalho remunerado. Suas
necessidades básicas e de seus filhos são supridas por outros meios, tais como
apoio governamental e familiar. O artista sugere que, por escolha, não costuma
vender suas obras. Sua maior dificuldade financeira, em relação ao desenvolvimento
de seu processo artístico, é a compra de materiais para criação de novas obras. Em
suas próprias palavras:
Não, eu não vendo as minhas obras… é mais no sentido de comprar material,
é uma dificuldade para mim, porque é caro, os pincéis o caros, e eu uso
pouca coisa, mas o problema é minhas condições, eu sou uma pessoa que
juntando todas as minhas rendas é menos de um salário… e eu tenho dois
filhos… tá entendendo? Aí eu tenho que pedir ajuda da minha mãe, a minha
mulher ajuda também… mas em sentido artístico, parar e fazer uma obra, é
difícil também… (Informação verbal)
15
.
14
MOLDURA. Entrevista remota. [jul. 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 4 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
15
TELA. Entrevista remota. [mar. 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 29 min.). Entrevista concedida ao
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Nesse ponto da entrevista, salta aos olhos algumas contradições: de um lado,
Tela, de modo consciente e deliberado, opta pela não comercialização de suas obras
- ação esta que poderia lhe render alguma fonte de recursos financeiros. Ao mesmo
tempo, relata a dificuldade com a compra de materiais. Trata-se de uma
característica que o diferencia dos outros artistas pesquisados, os quais procuram
formas de apresentar e vender suas obras ao público interessado. Com isso,
destacamos que o caráter de informalidade do trabalho de artistas também pode
estar ligado a suas convicções particulares, muitas vezes alimentada por uma
concepção romantizada da figura do artista, como comentaremos mais adiante.
Apesar de Tela considerar a arte como um tipo de trabalho, não é reconhecida
por este como um “trabalho remunerado”. Ao longo dos 15 anos de trabalho com
arte, realizou somente uma exposição com cachê, e em 2024 realizou outra,
financiada por um edital público promovido pelo Governo Federal. Assim, a fala de
Tela demonstra que suas dificuldades financeiras vão além da relação com o trabalho
de arte, mas que isso não o impede de continuar suas experimentações com a
pintura.
Assim, podemos afirmar que a sua criação artística é motivada por um desejo
pessoal de expressão que não se orienta pela necessidade de suprir suas condições
materiais de sobrevivência. Cabe salientarmos que, ainda que o entrevistado fosse
um artista que circula em diversos espaços expositivos e de venda, isso não seria
garantia de estabilidade financeira e de continuidade de sua produção. Como observa
Montelli
16
:
Basta olharmos para os editais de salões e ocupações de espaços expositivos
públicos ou privados para localizar uma cláusula que diz: ‘será de inteira
responsabilidade do artista.’ Na maioria dos casos, a/o artista não deve
apenas produzir obras, mas também se responsabilizar pelo transporte, pela
montagem, pelo suporte técnico, pelos aparelhos eletrônicos, amesmo
pela segurança e pela organização do evento de abertura. Principalmente
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)].
16
MONTELLI, Eduardo. O enquadramento performativo como trabalho de arte. 2021. Tese
(Doutorado em Artes Visuais) − Escola de Belas Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro, 2021. p. 128.
11
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
no caso das residências artísticas, além de gastos com passagens,
alimentação e produção de obras, o cobradas taxas de inscrição e outros
valores, como aluguel de ateliê.
As condições financeiras de artistas brasileiros, especialmente os que vivem
fora do eixo Rio-São Paulo, o sempre atravessadas por dificuldades de estabilização
de um fluxo de produção, distribuição e venda de suas obras, bem como as que se
relacionam com a garantia de necessidades básicas como alimentação e moradia.
Mesmo quando o trabalho é estimulado por editais, é preciso levar em consideração
a quantidade de trabalho não remunerado exercido e, principalmente, os gastos não
retornáveis que são investidos pelos próprios artistas.
O caso do artista Tela demonstra uma situação extrema no que tange à
instabilidade financeira do trabalhador da arte. Observamos que o artista se
encontra pouco estimulado a realizar seu trabalho artístico de modo exclusivo e
intenso, em razão de suas condições materiais e de seu contexto social, senão,
vejamos o que afirma:
Duas vezes por mês… eu consigo trabalhar com arte… entendendo? Pois
os materiais são caros… não para trabalhar toda hora não… se os materiais
não fossem tão caros eu poderia trabalhar tranquilamente uma vez por dia…
(Informação verbal)
17
Segundo Cerqueira
18
, a produção artística no Brasil e na França, se destaca
pela sua adaptabilidade em contextos econômicos incertos, resultando em diversas
formas de organização, como o empreendedorismo individual, o trabalho autônomo
e outras modalidades não convencionais, como a intermitência e o trabalho
simultâneo em múltiplas ocupações. Essa flexibilidade acaba possibilitando a adoção
de abordagens variadas dos artistas, desde aquelas mais dependentes até as mais
17
TELA. Entrevista remota. [mar. 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 29 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
18
CERQUEIRA, Amanda P. Coutinho de. O artista como trabalhador. In: COLÓQUIO MARX ENGELS, 8.,
2015, Campinas. Anais [...]. Campinas: UNICAMP, 2015. v. 1. p. 1-9.
12
Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano
Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região
TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
autônomas, combinando diferentes atividades, para financiar suas obras. E a autora
19
ainda aponta:
[...] a administração dos riscos, própria da atividade artística, faz com que
este tipo de trabalho reúna três características essenciais: descontinuidade,
perspectivas incertas e variações de remuneração.
Nessa esteira, como sabemos, as formas de inserção no mercado da
arte, levam a instabilidade dos rendimentos financeiros (salários) alcançados com o
trabalho. Ora, na sociedade capitalista, o salário é sempre proporcional ao número
de horas trabalhadas e/ou de metas realizadas. Por isso, momentos em que os
artistas têm menor rendimento financeiro, exigindo-lhes certas medidas de
planejamento para obtenção de recursos.
Ainda em diálogo com as reflexões de Cerqueira
20
, podemos observar, a partir
das entrevistas realizadas, que a variação da remuneração do artista, também está
relacionada com a disposição (ou não) que ele possui para financiar o custeio com as
formas de circulação e exposição de suas obras. A fala de Tesoura é significativa,
nesse sentido, ao apontar: “Fiz a exposição, eu gastei metade do cachê com a
exposição, ficou muito bonito mesmo!” (Informação verbal)
21
.
Já a artista Tinta, decidiu realizar todas as etapas de uma de suas exposições
sozinha para economizar dinheiro. Durante a entrevista, ao refletir sobre os motivos
que a impulsionaram a montar sua exposição a partir de autorretratos, enfatizou:
“Vou fazer autorretrato, para não dar cachê a ninguém” (Informação verbal)
22
.
19
CERQUEIRA, Amanda P. Coutinho de. O artista como trabalhador. In: COLÓQUIO MARX ENGELS,
8., 2015, Campinas. Anais [...]. Campinas: UNICAMP, 2015. v. 1. p. 7.
20
CERQUEIRA, Amanda P. Coutinho de. O artista como trabalhador. In: COLÓQUIO MARX ENGELS,
8., 2015, Campinas. Anais [...]. Campinas: UNICAMP, 2015. v. 1. p. 1-9.
21
TESOURA. Entrevista remota. [nov. 2023]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2023. 1 arquivo .mp3 (ca. 23 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
22
TINTA. Entrevista remota. [dez. 2023]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2023. 1 arquivo .mp3 (ca. 47 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
13
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
De algum modo, a fala da pessoa entrevistada expressa uma preocupação em
não direcionar parte do cachê obtido com a exposição para o pagamento de trabalho
de outras pessoas. Como apontamos, os artistas se inserem em relações de
trabalho a partir de contratos pontuais ou de atividades e projetos desenvolvidos.
Nesse sentido, os trabalhadores-artistas experimentam uma incerteza quanto aos
rendimentos financeiros que terão acesso a cada mês, situação diferente daqueles
trabalhadores que estão inseridos formalmente no mercado de trabalho.
Ainda no que se refere a esse tema, algo importante para destacar: em
outros momentos da entrevista, Tinta reclama da ausência de pessoas para auxiliá-
la nos processos técnicos que envolvem a produção artística, ou seja, existe a
necessidade de mobilizar outras pessoas para trabalhar, contudo a entrevistada
abdica dessa possibilidade, sobrecarregando-se, para manter a integralidade do
cachê.
Ademais, o tempo de trabalho é pensado, pela artista Tinta, não apenas como
o momento da execução propriamente dita de suas obras, ao contrário, ele também
se refere aos lapsos de tempo em que ocorrem sua preparação e suas reflexões e
abstrações. Para ela, o tempo de labor pode ser considerado a partir das dimensões
objetiva e subjetiva do trabalho. Essa reflexão aparece mais cristalina quando, em
sua entrevista, tece uma comparação entre a sua experiência em um emprego formal
e aquela experienciada no trabalho artístico. Nela, a artista relata que, em certos
momentos de seu processo criativo, não consegue “desconectar” do trabalho, de tal
modo que as ideias e reflexões lhe acompanham até durante os seus tempos de
repouso. Senão, vejamos:
Por exemplo, quando eu trabalhava no IBGE, eu andava no sol pra fazer as
pesquisas. Eu andava muito e eu ganhava pouco. Mas o pouco que eu ganhava
era certo. Eu sabia organizar. E como eu não tinha essa paixão pelo IBGE, eu
não ficava pensando no IBGE na hora de me deitar (Informação verbal)
23
.
23
TINTA. Entrevista remota. [dez. 2023]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2023. 1 arquivo .mp3 (ca. 47 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a Universidade
Federal de Campina Grande (UFCG).
14
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
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1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Esses apontamentos são interessantes sobretudo para problematizarmos o
sentido e a configuração da jornada de trabalho dos artistas.
Em geral, o tempo na sociedade capitalista é constituído por duas dimensões:
a primeira, refere-se a carga horária em que o trabalhador está diretamente inserido
no espaço produtivo ou executando as tarefas que lhe competem. Já na segunda, o
trabalhador pode dedicar-se a outras atividades e tarefas que não estejam
relacionadas ao seu ambiente laboral, ou seja, estamos nos referindo ao tempo de
trabalho e ao tempo de vida dos sujeitos. Contudo, na medida em que o modo de
produção capitalista avança, podemos perceber nas mais distintas esferas de
trabalho que o tempo de trabalho avança, apropriando-se cada vez das frações do
tempo de vida, característica essa muito bem descrita por Han
24
em seu livro A
sociedade do cansaço.
Em seu relato, a pessoa entrevistada menciona duas configurações distintas
de trabalho que ela experimentou em seu percurso. Na primeira delas, alude a um
trabalho temporário junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
portanto, realizado a partir de uma jornada de trabalho pré-estabelecida. A segunda
configuração diz respeito ao momento em que a prática artística passa a ser, para
ela, uma forma de trabalho. Nesse segundo caso, não há, do ponto de vista objetivo,
um tempo de trabalho para determinado para a realização das atividades (tal como
ocorria no IBGE), e o fato de ela sentir prazer ou ter identidade com a produção
artística a mantém vinculada ao trabalho e as suas demandas durante um lapso de
tempo muito maior.
Essa reflexão nos serve de alerta para o fato de que mesmo quando a
realização do trabalho é permeada por identidade, satisfação e prazer, sua execução
sob extensas jornadas pode levar à exaustão.
Nessa direção, a própria entrevistada indica um período de cansaço extremo
que ela classifica como Burnout, fazendo-a ficar afastada do trabalho artístico entre
2018 e 2022: “[...]ninguém me diagnosticou. Mas eu fiquei sem conseguir trabalhar,
24
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017. p. 7-30.
15
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
fiquei sem conseguir comer, fiquei péssima, assim. Não conseguia fazer nada,
conseguia ficar deitada[...]” (Informação verbal)
25
.
É significativo destacar que nas entrevistas surgiu mais outro ponto
relacionado ao acúmulo de atividades. O artista Tela afirmou que também é
estudante. Portanto, além do trabalho com arte, está em busca de outros caminhos
profissionais. Como vimos, a busca por atividades que sejam fonte de renda
alternativa ao trabalho de arte, e que permitam que este possa continuar sendo
realizado mesmo sem garantir o sustento do artista, é bastante comum.
Além da observada necessidade de acumular profissões, cabe pontuarmos que
o próprio fazer artístico contemporâneo exige a realização de múltiplas tarefas e
atividades não remuneradas, muitas vezes sem que os artistas tenham condições
materiais adequadas para esse serviço excedente. Tela, por exemplo, afirma o ter
um lugar exclusivo para trabalhar, tal como um estúdio ou ateliê. Suas pinturas são
realizadas em um quarto da casa em que mora com sua família. Sua jornada de
trabalho é irregular, varia de acordo com seu acesso a materiais e de encontros que
faz com amigos e conhecidos, pois essa é uma característica de seu processo
artístico, que inclui a troca direta com as pessoas que visitam sua casa. Sendo assim,
o entrevistado não tem interesse pelo uso das redes sociais como uma ferramenta de
trabalho artístico. Porém, declara que utiliza o Facebook como um espaço de
divulgação de seus processos, apesar de não divulgar muitas informações sobre sua
vida pessoal.
Nesse sentido, é interessante destacar algo: mesmo que sua forma de fazer
arte e suas opiniões pessoais não estejam em sintonia com o uso das redes sociais na
internet, tais plataformas se mostram presentes no seu trabalho artístico. Com isso,
podemos observar que o papel do uso dos espaços de convivência digital se confirma,
cada vez mais, como significativos e relevantes na experiência do trabalhador de
arte da atualidade, ainda que em diferentes intensidades. Compreendemos que o
25
TINTA. Entrevista remota. [dez. 2023]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2023. 1 arquivo .mp3 (ca. 47 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
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fazer artístico da atualidade não se limita a um único local e único modo de trabalho,
como aponta Montelli
26
:
O trabalho da/do artista contemporâneo/a não se limita aos espaços do
“ateliê”, do “museu” ou da “galeria”: ele acontece em todo lugar, em
tempo integral. A produção de obras para exposição ou venda se confunde
com a elaboração e manutenção de uma série de enquadramentos como
portfólios, currículos, sites, perfis em redes sociais, inscrições em editais,
projetos para residências, entre outros.
Os artistas Guache e Pincel também ressaltam a importância das plataformas
digitais e tecnológicas para realização e divulgação do seu trabalho. Pincel nos
informa que conta com as redes sociais, Instagram e Facebook, para a exposição do
seu trabalho. Porém, sua maior janela de divulgação, o seu portfólio, é o Instagram,
sendo também o meio de comunicação mais ágil de entrar em contato com o artista.
Guache, ressalta a potencialidade do TikTok para impulsionar suas vendas: “No
Tik Tok eu tenho mais audiência que no Instagram, sabe? E eu faço muitas vendas
pelo Tik Tok. No começo eu nem acreditava nisso, mas realmente eu fiz muitas
vendas pelo Tik Tok” (Informação verbal)
27
.
Alguns artistas, dentre eles o próprio Pincel, também relatam a utilização de
aparatos tecnológicos para produzir parte de suas obras. Mas, é interessante destacar
que a posse dos equipamentos digitais ocorre de maneira desigual entre os artistas
entrevistados. Esfuminho, por exemplo, destaca que seus desenhos digitais para
Histórias em Quadrinhos são todos feitos pelo aparelho celular.
Eu uso aplicativos pra fazer arte digital […] eu uso pra fazer as minhas HQ,
que eu escrevo histórias em HQ, eu uso esses aplicativos pra fazer, tudo
pelo celular, até porque eu não tenho computador (Informação verbal)
28
.
26
MONTELLI, Eduardo. O enquadramento performativo como trabalho de arte. 2021. Tese
(Doutorado em Artes Visuais) − Escola de Belas Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro, 2021. p. 89-90.
27
GUACHE. Entrevista remota. [maio 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.]. 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 34 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)].
28
ESFUMINHO. Entrevista remota. [jun. 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e
Elís Santana Ferreira. PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 18 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
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Ainda no que tange às dificuldades, outro elemento merece destaque, a saber:
as questões sobre os desafios enfrentados pelos trabalhadores em diferentes
contextos ocupacionais, sobretudo no que se refere à dimensão sociopolítica. Esses
desafios trazem reflexo nos artistas entrevistados, que apresentam um certo tipo de
resistência à organização coletiva. Vejamos o que diz Tinta: A gente já é desunido
antes de pensar em uma organização, sabe?[...] Eu mesmo não, fora!” (Informação
verbal)
29
.
Já o artista Pincel também ressalta que:
Eu acho que pra chegar e participar de algum coletivo, muita coisa tem que
mudar[...] E às vezes tem um olhar político demais, não é uma forma de
ajudar pessoas, de dar visibilidade, e isso me afasta um pouco. E
principalmente em cidade pequena, a gente sabe como funciona.”
(Informação verbal)
30
.
Podemos observar opiniões semelhantes na fala do artista Tela, que também
afirma não estar associado a nenhum tipo de grupo ou sindicato de artistas. Apesar
de reconhecer que esse tipo de organização coletiva pode trazer vantagens para os
artistas, salienta que o deseja fazer parte de alguma associação, pois considera
que há muito “conflito de ego” nesses contextos. Em suas próprias palavras:
Esse ambiente artístico [sindicatos, associações de artistas] não é uma coisa
assim… é bom, economicamente, para procurar incentivo, essa união é boa…
mas passando disso, um conflito muito grande… de egos… agora, eu gosto
muito de umaé porque aqui não tem… é… vamos supor… quando você é
um atleta e tem outro atleta que corre mais, e aí você quer correr mais… É
uma competição… eu gosto muito de competição… (Informação verbal)
31
.
29
TINTA. Entrevista remota. [dez. 2023]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2023. 1 arquivo .mp3 (ca. 47 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
30
PINCEL. Entrevista remota. [maio 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 16 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
31
TELA. Entrevista remota. [mar. 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 29 min.). Entrevista concedida ao
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Por outro lado, Tela diz acreditar que é importante a convivência com outros
artistas, pois isso supostamente aumentaria a competição e estimularia a produção
de novas obras. Porém, em sua cidade não muitos outros artistas, o que o
entrevistado considera como uma desvantagem em seu trabalho, algo que reduz sua
motivação. Além disso, a convivência com outros artistas, especialmente mais velhos
e mais experientes, é considerada pelo entrevistado como uma forma de
aprendizagem e inspiração à qual ele não tem acesso em razão da localidade onde
mora.
Em sintonia com a perspectiva de Holzhacker
32
, podemos considerar que a
desconfiança generalizada na política é um fenômeno global que ameaça a
legitimidade dos sistemas democráticos contemporâneos. Alguns estudos revelam
uma queda considerável no envolvimento dos eleitores nas atividades políticas
tradicionais, levando-os a buscar outras formas de participação, resultando em um
distanciamento entre os políticos e a população, a falta de transparência na gestão
pública e uma ampla desconfiança na ação política.
Ainda assim, existe a luta dos artistas pelos seus direitos. Pincel revela que
conseguiu auxílio financeiro a partir da Lei Paulo Gustavo
33
, para trabalhar em um
mural em sua cidade, juntamente a cerca de 30 crianças, incluindo crianças autistas
e Pessoa com deficiência (PCDs).
Dessa forma, a arte acaba desempenhando um papel significativo na promoção
da inclusão social, sendo uma ferramenta importante para sensibilizar a sociedade,
combatendo estigmas e preconceitos, valorizando a diversidade. Levando em conta
o trabalho que o entrevistado proporciona, por meio das atividades artísticas
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
32
HOLZHACKER, Denilde. Os riscos do populismo para as democracias na era Trump. Revista da ESPM,
São Paulo, v. 23, n. 3, p. 54-59, jul./set. 2017.
33
BRASIL. Lei Complementar nº 195, de 8 de julho de 2022 (Lei Paulo Gustavo). Dispõe sobre o apoio
financeiro da União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios para garantir ações
emergenciais direcionadas ao setor cultural. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano
160, n. 128-B, p. 1, 8. jul. 2022. Disponível em:
https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=08/07/2022&jornal=601&pagi
na=1&totalArquivos=7. Acesso em: 10 mar. 2024
19
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
inclusivas, as crianças conseguem ter a oportunidade de expressar suas identidades,
experiências, emoções e perspectivas.
Geralmente as crianças com autismo, por conta do momento delas, elas se
fecham um pouco, tem esse momento em que elas estão bem fechadas, e
evitam de participar às vezes de outras atividades, que elas sentem vontade,
mas talvez elas não se sintam tão convidadas a participar. E eu faço isso, eu
vejo uma criança que gosta de desenhar e a gente o potencial, chama ela
e insiste pra que ela se sinta à vontade em compartilhar aquilo que ela sabe,
aquilo que ela desenha (Informação verbal)
34
.
Por fim, cabe também pensarmos sobre o imaginário acerca da identidade do
sujeito artista que parece influenciar o trabalho de um dos artistas entrevistados.
Nesse sentido, Tela nos expôs que deseja ser considerado como um “artista maldito”
e que espera ter reconhecimento de sua obra apenas após sua morte. Com isso, o
artista revela que seu imaginário acerca da figura do trabalhador da arte é carregado
de ideias herdadas do pensamento do século XX, que, segundo Anne Cauquelin
35
,
tendemos a supor como eternas. Esse pensamento pode ser ilustrado, por exemplo,
pela ideia de uma continuidade ao longo de uma cadeia temporal marcada pela
inovação e pelo progresso. A ideia de arte como ruptura com o poder instituído, o
artista contra o burguês, o exilado da sociedade. A ideia de um valor universal da
arte, igual para todos. A ideia do artista como gênio.
Tela chega a citar exemplos de artistas que considera como referências em
seu imaginário de “artista maldito”, explicitando que seu pensamento está vinculado
aos ideais projetados pelas vanguardas europeias do século XX.
Eu gosto muito de um cara chamado Modigliani, que era considerado maldito
em vida… quando morreu, foi considerado… e outros que eram
considerados malditos no seu tempo… fazendo um tipo de arte, e tendo um
tipo de comportamento que atrelava isso a eles… (Informação verbal)
36
34
PINCEL. Entrevista remota. [maio 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 16 min.). Entrevista concedida ao
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a Universidade
Federal de Campina Grande (UFCG).
35
CAUQUELIN, Anne. Arte contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins, 2005. p.17-18.
36
TELA. Entrevista remota. [mar. 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.], 2024. 1 arquivo .mp3 (ca. 29 min.). Entrevista concedida ao
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
Ainda segundo Cauquelin
37
, a vanguarda surge como provocação e
contestação, de modo que o artista é considerado como um sujeito fora ou além das
regras. Nesse processo histórico, a arte buscou se libertar do sistema acadêmico
através do liberalismo econômico, recusando não apenas os valores atestados pelas
academias, mas principalmente a capacidade destas em gerir o domínio da arte. O
sistema da arte, então, passou a ser gerido por órgãos privados, marchands, críticos
e compradores. Para que tais mediadores da cadeia de consumo de obras de arte
fossem valorizados, foi necessário isolar o artista, investindo na ideia de que essa
figura altamente criativa e espontânea não era capaz de pensar racionalmente para
organizar seus próprios discursos e, principalmente, dirigir os destinos
mercadológicos de sua própria produção. A autora salienta que, apesar das grandes
transformações do século XX e XXI, especialmente ligadas aos avanços das
tecnologias de comunicação, ainda podemos conviver com esses pensamentos que
compreendem o artista como um sujeito marginal que precisa ser administrado por
outros agentes para que possa ter algum tipo de valorização social.
Além disso, cabe mencionar as dificuldades para a construção da imagem dos
artistas, em virtude dos espaços e territórios em que estão inseridos. Ao ser
questionado sobre acerca de sua imagem pública, um dos participantes afirmou:
Eu queria ser visto mais dentro da cidade não como apenas como o garoto
que desenha [... ] eu que ver isso como realmente uma profissão, que eu
ainda não vejo, dentro da minha cidade, eu ainda vejo que as pessoas me
enxergam apenas como um menino que desenha, não é tipo o artista
(Informação verbal)
38
.
A construção da imagem do artista, que está na sociedade, muitas vezes é
marcada por estereótipos idealizando os artistas como indivíduos especiais com
habilidades excepcionais. Essa visão romantizada pode ser problemática, pois ignora
Projeto de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a
Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
37
CAUQUELIN, Anne. Arte contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins, 2005. p.123-152.
38
AQUARELA. Entrevista remota. [jun. 2024]. Entrevistadores: Hiago Trindade, Eduardo Montelli e Elís
Santana Ferreira. Sousa, PB: [s. n.]. 1 arquivo .mp3 (ca. 24 min.). Entrevista concedida ao Projeto
de Pesquisa do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab) grupo vinculado a Universidade
Federal de Campina Grande (UFCG).
21
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Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região
TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
as realidades do trabalho artístico, as quais vimos ao decorrer desta pesquisa, que
incluem dedicação, formação, e um processo criativo que muitas vezes é árduo e
repleto de desafios. A ideia de que os artistas são seres de exceção pode levar à
desvalorização dessa profissão, uma vez que a sociedade tende a ver a arte como
algo que não requer tanto comprometimento e outras áreas de trabalho.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados e análises produzidos a partir deste estudo, revelam um quadro de
precarização do trabalho do artista plástico paraibano. Certamente, essa condição
precária não está dissociada das determinações mais amplas que se sucedem no
mundo do trabalho, atingindo os mais diferentes setores e categorias profissionais.
Contudo, no que tange a condição ao trabalhador-artista algumas particularidades
merecem ser ressaltadas:
1. As falas dos entrevistados apontam para a configuração de uma jornada
de trabalho bastante elevada e incerta, haja visto que a atuação do
artista plástico paraibano decorre fundamentalmente de demandas
espontâneas dos consumidores ou de editais. Nesse sentido, esses
sujeitos estão suscetíveis a um conjunto de oscilações e incertezas que
podem ocasionar rebatimentos objetivos e subjetivos para os
trabalhadores-artistas. Em nosso processo investigativo, apenas um
artista pontuou a conexão existente entre a configuração do seu
trabalho e o adoecimento. Contudo, acreditamos que esta não é uma
situação isolada e a continuidade da pesquisa, a partir da realização de
novas entrevistas, poderá revelar outros casos semelhantes;
2. Em decorrência da flexibilidade da jornada de trabalho, os rendimentos
financeiros percebidos pelos trabalhadores-artistas são incertos e,
nesse sentido, esses sujeitos precisam estabelecer inúmeras estratégias
22
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
trabalho de artistas plásticos paraibanos. Revista Jurídica Trabalho e Desenvolvimento Humano, Campinas, v.8, p.
1-25, 2025. DOI: https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.272.
para suprir as suas necessidades fundamentais, dentre as quais o
acúmulo de atividades e funções e o auxílio familiar e governamental;
3. Os trabalhadores-artistas passam por dificuldades em relação à
infraestrutura para o desenvolvimento de suas atividades, dado que,
em geral, não possuem ateliê ou estúdios e, assim sendo, realizam seus
trabalhos no espaço doméstico, impedindo uma maior diferenciação
entre o tempo de vida e o tempo de trabalho;
4. A despeito de vivenciarem inúmeras dificuldades no âmbito laboral, os
artistas plásticos paraibanos entrevistados expressaram certa apatia e
recusa às formas de organização coletiva;
5. Apesar de todos os entrevistados terem sido perguntados sobre a
preocupação com a construção de sua imagem pública como artistas,
apenas Tela relatou o desejo de ser considerado como um tipo
específico de artista, denominado por ele como “artista maldito”. Essa
especificidade nos informa que é importante levarmos em conta quais
são os imaginários e as referências acerca da figura do artista que guiam
os entrevistados em seus processos. Acreditamos que este é um dado
significativo, pois também pode influenciar a forma de trabalho de um
artista.
Além das conclusões sistematizadas, esta pesquisa revela a possibilidade de
avançar no aprofundamento do tema, a partir da construção de novos objetos de
estudo. Tal prerrogativa deriva da preocupação de alguns entrevistados em relação
às possíveis mediações entre a educação e a arte.
Além disso, a fala de alguns entrevistados revelam a importância das leis de
incentivo à cultura, a exemplo da Lei Paulo Gustavo. Nesse sentido, ainda que não
seja foco de estudo neste artigo, entendemos que estudos posteriores podem ser
desenvolvidos a partir de um escopo mais amplo das legislações de escala nacional e
estadual que estabelecem medidas de apoio e desenvolvimento dos trabalhadores-
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TRINDADE, Hiago; MONTELLI, Eduardo; FERREIRA, Elis Santana. Trabalhar e viver da arte: condições e relações de
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artistas. Destacamos, mais especialmente, a Lei Rouanet, considerada uma das
principais ferramentas de fomento à cultura no Brasil desde sua criação, em 1991.
Em suma, os dados apresentados neste estudo oferecem uma perspectiva
acerca das condições e relações de trabalho dos artistas plásticos paraibanos: a
jornada de trabalho elevada e incerta, a instabilidade financeira, a falta de
infraestrutura adequada e a ausência de uma organização coletiva o apenas
algumas das questões destacadas. A elas, outras podem se somar. Disso resulta a
necessidade de avançar na investigação proposta para alcançar uma compreensão
mais profunda das possibilidades e dos desafios do fazer artístico, especialmente na
Paraíba.
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Hiago Trindade
Professor do Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG)
Campus Sumé. Doutor em Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Coordenador do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab). Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2771002230887296. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0462-4868. E-
mail: hiagolira@hotmail.com.
Eduardo Montelli
Doutor em Linguagens Visuais pelo PPGAV da EBA/UFRJ. Mestre em Poéticas Visuais pelo PPGAV
do Instituto de Artes/UFRGS. Bacharel em Artes Visuais pelo Instituto de Artes/UFRGS. Membro
do Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab). Lattes:
http://lattes.cnpq.br/3231629844108704. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8756-7875. E-
mail: eduardo.montelli@professor.ufcg.edu.
Elís Santana Ferreira
Estudante do curso de Licenciatura em Ciências Sociais da UFCG Campus Sumé. Membro do
Laboratório de Estudos do Trabalho (LETrab). Lattes:
http://lattes.cnpq.br/6528460161519873. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-4198-3757. E-
mail: elis.santana@estudante.ufcg.edu.br