“Parte da família”?

A racionalidade escravista em confronto com os parâmetros internacionais de proteção ao trabalho em âmbito doméstico

Autores

  • Valdete Severo Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
  • Gabriela Roppa dos Santos Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

DOI:

https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.316

Palavras-chave:

afeto; escravidão contemporânea; OIT; raça, gênero e classe; trabalho doméstico;

Resumo

Introdução: O presente artigo analisa a persistência do trabalho doméstico análogo à escravidão no Brasil, com especial atenção ao discurso de que a trabalhadora seria “parte da família”. Parte-se do reconhecimento histórico de que a abolição formal da escravidão não foi acompanhada de políticas de inclusão social, perpetuando, assim, formas de exploração que atingem, sobretudo, mulheres negras em situação de vulnerabilidade social.

Objetivo: O objetivo é demonstrar como o afeto é mobilizado como instrumento de dominação simbólica, legitimando a precarização das relações laborais e dificultando o reconhecimento do vínculo profissional. Assim, busca-se confrontar essa realidade com os parâmetros internacionais de proteção ao trabalho, especialmente os estabelecidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Metodologia: A metodologia empregada é qualitativa, com base em revisão bibliográfica, análise documental e estudo de casos emblemáticos, como o de Madalena Gordiano e Sônia Maria de Jesus, que revelam a permanência da racionalidade escravista sob novas roupagens.

Resultados: Quanto aos resultados objetivos, aponta-se que o discurso de familiaridade atua como um mecanismo de invisibilização do vínculo empregatício, contribuindo para a naturalização da exploração. Observa-se ainda que a legislação nacional, mesmo após avanços como a Emenda Constitucional nº 72 e a Lei Complementar nº 150, permanece aquém dos padrões internacionais previstos nas Convenções da OIT nsº 29, 182 e 189, bem como na Recomendação nº 201.

Conclusão: Portanto, conclui-se que a superação da racionalidade escravista e do discurso de familiaridade é condição essencial para efetivar os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. O enfrentamento do problema requer não apenas medidas jurídicas, mas também a transformação das estruturas racistas e patriarcais que sustentam a exploração no trabalho doméstico.

PALAVRAS-CHAVE: afeto; escravidão contemporânea; OIT; racionalidade escravista; trabalho doméstico.

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Biografia do Autor

  • Valdete Severo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

    Professora de direito e processo do trabalho na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital – Universidade de São Paulo (USP) e UFRGS, membra do RENAPEDTS - Rede Nacional de Pesquisa e Estudos em Direito do Trabalho e Previdência Social e Pesquisadora colaboradora em nível de pós-doc junto ao programa de pós-graduação em Filosofia da UNICAMP/SP. Doutora em Direito do Trabalho pela USP e Mestre em Direitos Fundamentais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS). Especialista em Processo Civil pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Especialista em Direito do Trabalho, Processo do Trabalho e Direito Previdenciário pela Universidade de Santa Cruz (UNISC-RS). Master em Direito do Trabalho, Direito Sindical e Previdência Social, pela Universidade Europeia de Roma (UER). Especialista em Direito do Trabalho e Previdência Social pela Universidade da República do Uruguai. Pós doutora em Ciências Políticas pela UFRGS. Juíza do trabalho da Quarta Região desde 2001. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3431442775934666. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1145-8140. E-mail: valdete.severo@gmail.com.

  • Gabriela Roppa dos Santos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

    Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharela em Direito pela Universidade UFRGS). Lattes: http://lattes.cnpq.br/0035006234173059. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-0430-5011. E-mail: gabrielaroppa2@gmail.com.

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Publicado

2025-12-19

Edição

Seção

Artigos para o “Dossiê Aplicação das normas Internacionais do trabalho da OIT pelas cortes nacionais”

Como Citar

“Parte da família”? A racionalidade escravista em confronto com os parâmetros internacionais de proteção ao trabalho em âmbito doméstico. (2025). Revista Jurídica Trabalho E Desenvolvimento Humano, 8. https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.316
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