“Parte da família”?
A racionalidade escravista em confronto com os parâmetros internacionais de proteção ao trabalho em âmbito doméstico
DOI:
https://doi.org/10.33239/rjtdh.v8.316Palavras-chave:
afeto; escravidão contemporânea; OIT; raça, gênero e classe; trabalho doméstico;Resumo
Introdução: O presente artigo analisa a persistência do trabalho doméstico análogo à escravidão no Brasil, com especial atenção ao discurso de que a trabalhadora seria “parte da família”. Parte-se do reconhecimento histórico de que a abolição formal da escravidão não foi acompanhada de políticas de inclusão social, perpetuando, assim, formas de exploração que atingem, sobretudo, mulheres negras em situação de vulnerabilidade social.
Objetivo: O objetivo é demonstrar como o afeto é mobilizado como instrumento de dominação simbólica, legitimando a precarização das relações laborais e dificultando o reconhecimento do vínculo profissional. Assim, busca-se confrontar essa realidade com os parâmetros internacionais de proteção ao trabalho, especialmente os estabelecidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Metodologia: A metodologia empregada é qualitativa, com base em revisão bibliográfica, análise documental e estudo de casos emblemáticos, como o de Madalena Gordiano e Sônia Maria de Jesus, que revelam a permanência da racionalidade escravista sob novas roupagens.
Resultados: Quanto aos resultados objetivos, aponta-se que o discurso de familiaridade atua como um mecanismo de invisibilização do vínculo empregatício, contribuindo para a naturalização da exploração. Observa-se ainda que a legislação nacional, mesmo após avanços como a Emenda Constitucional nº 72 e a Lei Complementar nº 150, permanece aquém dos padrões internacionais previstos nas Convenções da OIT nsº 29, 182 e 189, bem como na Recomendação nº 201.
Conclusão: Portanto, conclui-se que a superação da racionalidade escravista e do discurso de familiaridade é condição essencial para efetivar os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. O enfrentamento do problema requer não apenas medidas jurídicas, mas também a transformação das estruturas racistas e patriarcais que sustentam a exploração no trabalho doméstico.
PALAVRAS-CHAVE: afeto; escravidão contemporânea; OIT; racionalidade escravista; trabalho doméstico.
Downloads
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Caso Sônia é desastroso para combater trabalho escravo, alerta auditor. Brasília, 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-05/caso-sonia-e-desastroso-para-combater-trabalho-escravo-alerta-auditor. Acesso em: 10 set. 2025.
BRASIL. Ministério da Economia. Subsecretaria de Inspeção do Trabalho. Atuação da Inspeção do Trabalho no Brasil para a erradicação do trabalho análogo ao de escravo: balanço 2020. Brasília: SIT, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/inspecao-do-trabalho/areas-de-atuacao/relatorio-2020-sit-oit-1.pdf. Acesso em: 16 set. 2025.
CASSAR, Vólia Bomfim. Direito do trabalho, apud SANTANA, Cristiana Barbosa. Afeto e solidariedade no trabalho escravo doméstico: estudo de caso “doméstica de criação”. Belo Horizonte. Editora RTM, 2022.
CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO (CNMP). Trabalho escravo. Disponível em: https://www.cnmp.mp.br/portal/institucional/conatetrap/trabalho-escravo. Acesso em: 13 set. 2025.
CORONEL, M. C. F. G. “Mulheres domésticas”: profissionais de segunda classe. Revista de Direito, v. 13, n. 17, p. 7-18, 2010, apud TEIXEIRA, Juliana. Trabalho Doméstico. São Paulo: Jandaira, Universidade Federal de Minas Gerais. 2021.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: Mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.
G1 TRIÂNGULO MINEIRO. Madalena Gordiano: família que a manteve em situação análoga à escravidão é condenada a mais de 14 anos de prisão em MG. G1, 17 abr. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2024/04/17/madalena-gordiano-familia-que-a-manteve-em-situacao-analoga-a-escravidao-e-condenada-a-mais-de-14-anos-de-prisao-em-mg.ghtml. Acesso em: 16 set. 2025.
GONZALEZ, Lelia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Ciências Sociais Hoje. Rio de Janeiro, ANPOCS, 1984. Disponível em: https://patriciamagno.com.br/wp-content/uploads/2021/04/GONZAL1.pdf. Acesso em: 5 set. 2025.
LANA, Ligia, "Da porta da cozinha pra lá": gênero e mudança social no filme Que horas ela volta?. Revista Rumores. 2016.
MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. Anatomia de uma injustiça secular: o Estado Novo e a regulação do serviço doméstico no Brasil. Belo Horizonte: Varia Historia. 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/vh/a/rmN3MsqsMhrdww3SkPG9JBs/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 10 set. 2025.
OIT. Convenção nº 29, 1930. Brasília, 1987. Disponível em: https://www.trt2.jus.br/geral/tribunal2/LEGIS/CLT/OIT/OIT_029.html. Acesso em: 16 set. 2025.
PEREIRA, Marcela Rage. A invisibilidade do trabalho escravo doméstico e o afeto como fator de perpetuação. São Paulo: Editora Dialética, 2021.
PEREIRA, Virgínia Areias. Herança escravocrata e trabalho doméstico remunerado: rupturas e permanências, 2012. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/19121/1/2012-dissertacao-VirginiaPereira.pdf. Acesso em: 6 set. 2025.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO - Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales Editorial, 2005. Disponível em: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf U. Acesso em: 5 set. 2025.
ROSA SILVA, Marta Helena. Mulheres negras no mercado de trabalho: empregadas domésticas. Revista Edição Popular, Uberlândia, n. 5. 2006. Disponível em: https://ieg.ufsc.br/public/storage/articles/October2020/01112009-014620silva.pdf. Acesso em: 6 set. 2025.
SANTANA, Cristiana Barbosa. Afeto e solidariedade no trabalho escravo doméstico: estudo de caso “doméstica de criação”. Belo Horizonte. Editora RTM, 2022.
SEVERO, Valdete Souto. Elementos para o uso transgressor do direito do trabalho. Campinas: Lacier, 2025.
TEIXEIRA, Juliana. Trabalho Doméstico. São Paulo: Jandaíra, Universidade Federal de Minas Gerais. 2021.
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Valdete Severo, Gabriela Roppa dos Santos

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Como Citar
- Resumo 783
- PDF 74
- HTML 27








